«Dignificámos o clube em todos os campos»

Manuel Rodrigues, em entrevista exclusiva, aborda a época desportiva da equipa de Sub19 ao longo desta temporada. O ex. treinador auri-negro, apesar da descida de divisão, fala no orgulho que foi ter orientado a formação junior do clube aveirense.

O que é que falhou para o SC Beira-Mar não ter conseguido a manutenção na I Divisão Nacional de Juniores?

Desde o momento que fui convidado para este projecto , tanto a minha equipa técnica como a própria estrutura do clube sabiam que iria ser um ano muito complicado e que teríamos imensas dificuldades em atingir algo de muito bom a nível desportivo. Defrontaríamos estruturas profissionais em que praticamente todas elas tinham atletas de selecções nacionais, vários com cláusulas de rescisão de milhões de euros e praticamente todos com um histórico futebolístico de campeonatos nacionais. Não sou treinador de me lamentar pelas condições de trabalho ou que poderíamos ter isto ou aquilo, até porque desde o primeiro dia que a Direcção me deu a conhecer todas as condições que iríamos ter. Aceitei o desafio sem receios e trabalhamos com o que tínhamos. Sabíamos que era um ano muito importante para o clube ao nível sénior e a grande prioridade teria que ser o apoio total da Direcção à equipa principal do clube e a verdade é que o resultado está à vista na construção de um plantel fantástico e uma grande época desportiva. O clube tem a perfeita noção do que faltou e o que tem de melhorar e a nível interno tudo será tratado para, novamente, o clube estar na primeira divisão de sub19 e depois cimentar a sua posição neste campeonato. Por isso, penso que em vez de colocarmos a questão em o que faltou para conseguirmos a manutenção, será mais real, olharmos para as estruturas que clubes como Futebol Clube do Porto, Braga , Guimarães, Aves, Leixões, Rio Ave, etc, possuem e nó,s Beira-Mar, ainda não. São clubes de primeira e segunda Liga, profissionais e que treinam no horário que querem com três ou quatro campos disponíveis e com jogadores que a maior parte deles só joga futebol. É verdade que estas equipas tinham jogadores com uma qualidade individual acima da média e que os nossos atletas não tinham tanta experiência nem o histórico futebolístico para conseguirem acompanhar durante uma época inteira a intensidade imposta por jogadores profissionais. Tínhamos jogadores que tinham de faltar a treinos porque não tinham boleia para se deslocar para o campo, atletas que muitas vezes tinham que estudar e faltavam a treinos, ou seja, resumidamente a diferença essencial está na questão do jogador profissional versus jogador amador e tudo que envolve o que é ser profissional, pois este campeonato é um campeonato profissional.

Apesar de ter descido de divisão, ficou a sensação que o SC Beira-Mar esteve melhor e mostrou ser mais competitivo na primeira fase…

Penso que é de realçar três momentos importantes na época: primeiro, a pré-época, em que todos que olhavam para o nosso clube e para os nossos jogadores e diziam que o Beira-Mar seria uma equipa de zero pontos e que só iria sofrer  goleadas porque praticamente só tínhamos  jogadores provenientes de clubes do Distrital, sem serem profissionais. Ninguém acreditava na manutenção.
O segundo momento foi a primeira fase regular deste campeonato em que todos viram que afinal o Beira-Mar, mesmo com atletas não profissionais, perdia por diferenças de um golo e muitas vezes com os jogos a terminar, sabia empatar e até sabia vencer a estruturas como Guimarães, Feirense, Braga, Boavista, Aves, Paços de Ferreira, etc. Lembro-me, por exemplo, quando fomos ao Olival, estávamos a vencer por 2-1 ao intervalo e ter jogadores a perguntarem-me o que estava a acontecer ali! (risos). Na realidade, esta equipa, aos 70 minutos de jogo, estava empatada em casa do campeão europeu! E foi nesta fase que colocamos as pessoas e a cidade  a sonhar  porque a verdade é que nós, equipa, e todas as pessoas que nos acompanhavam, estávamos a sentir que colectivamente, fruto de um esforço incrível dos nossos jogadores, de quererem aprender mais e mais, da união do grupo e de todos remarem no mesmo sentido, não éramos inferiores a muitas equipas deste campeonato. O problema foi sempre que a bola não entrava e do outro lado bastava um remate para entrar, vindo ao de cima a qualidade individual e a experiência dos jogadores. Na realidade, os nossos atletas também tiveram muito azar em vários jogos e tivemos várias adversidades externas ao jogo que nos impossibilitaram de pontuar muitas vezes e de crescer em termos de motivação.
A terceira fase, da manutenção, sabíamos que iria ser ainda mais complicada para nós porque todas as equipas se reforçaram ainda mais e muitos atletas que estavam a jogar nos Sub23 desceram aos Sub19, aumentando a diferença de qualidade entre a nossa equipa para as restantes. Para além disto, tivemos algumas lesões de atletas importantes e saídas de jogadores  o que fez diminuir o grupo, diminuir o ritmo de treino e automaticamente, notou-se nos jogos.

Porque é que decidiu sair quando a época ainda não tinha chegado ao fim?

Quando solicitei à Direcção uma reunião para mostrar o meu interesse em sair foi unicamente por respeito ao clube e já a pensar na preparação que tem de ser forte ao nível desportivo na próxima época. A Direcção sabia que não seria intenção da nossa equipa técnica continuar com a equipa Sub19 na próxima época e sabendo que a manutenção não seria possível, era altura de começar a preparar o ano seguinte. Assim, referi à Direcção que, da mesma forma que sempre achei que fizemos um excelente trabalho desde o início, estava na altura de sairmos e que não faria sentido o clube estar a pagar-nos mais um mês e meio de ordenados, pois o trabalho a realizar teria que já ser com alguém a pensar na época seguinte. Não me iria sentir bem nesse mês e meio a receber algo por um trabalho que já não iria ser profissional e sem grandes objectivos. Não sei trabalhar de outra forma.

Arrepende-se de ter aceite o desafio que constituiu treinar o SC Beira-Mar?

Para andarmos no futebol muito tempo é preciso amar o jogo e tudo à volta dele. Quando um treinador faz o que gosta e, ainda por cima, treina o seu clube de coração, como poderia estar arrependido? Pelo contrário! Quando a nível desportivo não atinges os teus objectivos e tens a Direcção do teu clube a agradecer todo o teu profissionalismo e a dizer que fazer mais era impossível; atletas a chorar no dia da tua saída a dizerem obrigado «Mister» por tudo que nos ensinou e tem aqui um amigo para a vida; o responsável da claque «Auri-Negros» a dizer que foi um prazer conhecer-me e que me admira como treinador e como homem; pais de atletas em que os filhos jogaram pouco mas ainda assim a agradecer o que fizemos pelos filhos; ter vivenciado o dia-a-dia das dificuldades do clube e de todo o seu crescimento rumo aos campeonatos profissionais; a aprendizagem que eu e a minha equipa técnica tivemos com todos os nossos jogadores e toda a estrutura do clube. Só tenho de estar agradecido a todo o clube por me ter proporcionado ser treinador de um dos melhores clubes de Portugal a nível histórico e um dos melhores clubes de Portugal desportivamente num futuro próximo.
O futebol não vive nem pode viver apenas do sucesso desportivo, muitas coisas boas aconteceram nesta época. Como treinador positivista que sou, penso que foi uma excelente época de aprendizagem para todos e que dignificamos imenso a nossa camisola em todos os campos e que o clube sabe perfeitamente o que fazer para solidificar os Sub19 na primeira divisão . Temos o exemplo das palavras de um dos melhores treinadores de Portugal, Vitor Oliveira: Se num campeonato de 14 equipas em que descem 3, estiverem os melhores 14 treinadores do mundo e jogadores …a verdade é que 3 dos melhores treinadores do mundo não irão ter sucesso desportivo e no entanto a probabilidade de todos trabalharem ao nível da excelência é grande.
Quais são os seus objectivos enquanto treinador?
Ando no futebol para atingir o patamar profissional e é isso que irei continuar a fazer. Pretendo ter agora um projecto com uma equipa sénior para cada vez mais me aproximar do patamar de segunda e primeira Liga. Assim, é continuar a trabalhar com o rigor que a nossa equipa técnica tem demonstrado em todo o lado que tem passado e acredito que, em breve, o trabalho vai compensar. Estas experiências só enriquecem um treinador que pretende chegar ao profissional. Quando passares de 3 para 8 adjuntos, de 1 para 6 campos disponíveis , de treinar de noite para quando quiseres, de ter jogadores amadores para profissionais, tudo se tornará ainda mais fácil.
Quer deixar alguma mensagem aos adeptos do SC Beira-Mar?
Primeiro tenho de agradecer a todos os pais dos nossos atletas por todo o apoio e dedicação que demonstraram. Depois, um muito obrigado à claque Ultras Auri-Negros porque apoiaram sempre que puderam e a realidade é que raramente se vê clubes a ter o apoio da claque nos sub19. Por fim, pedir a todos os adeptos do clube para serem especiais que aos poucos conseguem mudar o apoio ao nosso futebol. Apoiem o clube nas derrotas, nos momentos menos bons dos jogos, unam a cidade neste novo estádio e continuem a fazer crescer o nosso Beira-Mar. Acredito plenamente que o clube tem pessoas muito credíveis para o levar até aos campeonatos profissionais e que está preparado para tal, sempre com os pés bem assentes na terra. Cimentar o clube para depois crescer e nunca mais cair. Não falem do que os outros tem de bom e o que clube tem de menos bom, olhem para as coisas boas que o clube tem e ajudem a melhorar o que de menos bom existe. Todos os clubes tem coisas menos boas.
Deixe-me só deixar a ultima palavra para os meus jogadores: muito obrigado por tudo que me ensinaram e por conseguirem em muitos momentos da época sair da vossa zona de conforto e passar para um conceito mais profissional, foi um prazer enorme ser o vosso líder e amigo e espero ter contribuído, juntamente com a minha equipa técnica, para o vosso crescimento pessoal e desportivo.
Um obrigado a toda a estrutura do clube e ao Beira-Mar por entrares na minha história futebolística e acredito plenamente que seja um até já.